domingo, 24 de outubro de 2010

Abertura: Tempo da Palavra

O blog Tempo da Palavra nasceu de uma conversa com a Professora Valdelice Martins, grande amiga, sobre a importância da produção textual nas aulas de Língua Portuguesa noa cursos de graduação. Um dos objetivos deste espaço é expandir o processo de comunicação (escrita) e a percepção do indivíduo quanto às temáticas desenvolvidas em sala de aula. Para isso, os alunos e alunas dos curso de Pedagogia da Plataforma Freire da UNEB- DCH III em Juazeiro-BA, bem como do Curso de Viticultura e Enologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano - IF Zona Rural terão a oportunidade de desenvolver o hipertexto. Para iniciar as atividadedes deste blog, escrevi esta crônica sobre idosos. Este texto faz parte dos textos: LABUTAS DO SERTÃO.

Queridos amigos e amigas, participem, publiquem suas produções. Aqui a palavra é ENÉRGICA, VIBRANTE.
UM GRANDE ABRAÇO,
Professora Antonise Coelho


TEXTO INICIAL:
1. É tempo de acordar: o olhar aos idosos

Um dia desses, passando pelos caminhos do sertão numa viagem para Ouricuri, precisei parar pra tomar um gole d’água num barzinho de beira de estrada. Já estava muito tarde, sol escaldante e o carro não ajudava a diminuir o caminho. Então, o calor e cansaço se somavam naqueles instantes.
Entrei e nem reparei com um velho sentado na soleira da porta que me pediu algumas moedas. Primeiro, porque estava apressada e depois estava com outras preocupações. Pedi as chaves do banheiro feminino que ficava trancado para dar um ar de cuidado. Que história! O banheiro era tão fétido quanto o masculino. O que fazer se estava apertada a segurar as calças.
Quando retornei, passados alguns instantes, fui ao balcão e pedi um refrigerante dietético e mal começara a beber, quando ouvi gritos vindo de uma das portas. Avistei uma cena horrível.
Era o pobre homem que estava sendo enxotado por alguns meninos do lugar. Nada fizera para receber aqueles golpes, apenas interrompera a passagem de um deles. Não pensei duas vezes . Teria que fazer algo a respeito. Comecei a gritar e pedi que parassem de machucá-los, mas os jovens não tinham piedade. Os adultos presentes no ambiente pequeno e quente também estavam temerosos pela situação e ficaram parados.
Não pensei duas vezes e fui em cima de um deles para que pudesse parar. Loucura minha. Não sabia que estava armado e totalmente enlouquecido, mas houve um olhar de piedade que o fez recuar. Havia ali também o meu desespero e isto provocou uma pausa súbita naqueles dois jovens.
Logo, outros adultos vieram ao meu socorro, levantaram o senhor e o levaram para limpeza dos machucados.Fiquei trêmula diante do ocorrido, pois não pensara em nada diante do fato.
Depois de vários dias fiquei a me questionar sobre a dureza de ser um idoso neste sertão de Pernambuco e quanto estão despreparados os nossos velhos, principalmente aqueles que não tem família ou Instituição para acolhê-los. Os pedintes chegam a todo instante em nossa cidade. Não temos onde colocá-los. O que eles irão fazer? Que perspectiva de vida os espera. E nós, nesta sociedade medíocre ficamos a discursar sobre tantas possibilidades de mudança na atual situação.
Receio que seja tarde para fazermos grandes mudanças. O espírito humano, ao mesmo tempo está preparado para conhecer tecnologias, ainda está preso aos problemas particulares e nada faz pela coletividade.
É tempo de acordar. Quando passar este período eleitoral, iremos nos questionar sobre nosso papel como cidadãos.
Não podemos pedir mais tantas esmolas. O vício do cidadão está impregnado em todos os lugares por onde passamos. Pedimos proteção aos “doutores” e eles não nos escutam.
Assim, relembrar a figura daquele velho homem me traz uma sensação de inoperância e até mesmo de um certo sarcasmo. Talvez esses textos: Labutas do Sertão passem a ter mais valor, pois se ninguém os vir, nada valem; ou, por outras palavras enérgicas, já ditas por um grande cronista, não há espetáculo sem espectador.

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