segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

CRÔNICA: PROFESSORA ARRETADA


                        Professora Arretada
                                            Antonise Coelho de Aquino

Certo dia, na  escola, um colega me chamou de professora arretada e fiquei a refletir sobre o significado deste termo na minha vida como educadora. Até quando ‘ser arretada’ é sinônimo de corajosa, irreverente e, mesmo como desafio para contribuir e alterar aspectos do curso e da história de colegas e dos meus próprios alunos... 
Penso em quantos professores podem ser definidos como ARRETADOS em situações de ensino, muitas vezes, longe dos aparatos tecnológicos, da internet, em salas de aula nos mais distantes lugares da caatinga, sendo fortes e em constantes buscas por conhecimentos, sem importar com os riachos transbordando de água das chuvas de verão, ou o calor insuportável nas longas caminhadas ou em ônibus a percorrer estradas esburacadas do sertão. Quantos quilômetros para chegar em salas de aulas e, com o sorriso meio sem jeito, trabalhar com entusiasmo ao longo do dia, pois carrega as lembranças dos dias de descanso.
É preciso ser muito arretado para não desistir e perder as energias que a dedicação ao magistério nos exige no dia a dia. A autonomia e a inserção no mercado serão conquistadas, porém é necessário cuidar da autoestima, das emoções e, principalmente da força espiritual que nos acompanhará em todas as etapas desta carreira.
Certamente, também precisaremos compartilhar nossos sentimentos, sutilezas com os colegas para que as preocupações com as aparências não sejam prioridades em nossa vida docente e, assim saibamos forjar laços fortes de amizade.
No início da carreira, todos os professores deveriam ser convidados a participar de um pacto com a escrita e não abandoná-la nos anos seguintes, pois o registro diário é o principal e mais eficaz processo de análise da condição profissional, dos momentos de crise, de pausas e reconstruções. Esta descoberta não deve ser feita depois da aposentadoria, ao contar nossas histórias e reminiscências.  A escrita do diário com o crescimento profissional torna-nos mais conscientes do tamanho do iceberg que é a responsabilidade com o ensino.
Assim, quando paramos para o descanso em nossas férias, depois da rotina estressante e cansativa não estamos preparados para desacelerar de toda a carga de trabalho e afazeres. Ao entregar as notas e cadernetas paramos para decidir o que fazer. A situação que nos resta é cuidar da saúde, fazer um  ‘check up’ e realizar consultas e exames protelados.
E as verdadeiras férias? Bem, não esqueçamos que o tempo, companheiro inseparável de reflexões, é pequeno para o descanso e a reorganização do semestre letivo.
Acredito que as verdadeiras férias somente acontecem quando saímos da rotina, fugimos do cotidiano e realizamos descobertas. Essas são as férias abençoadas e resgatadas dos sonhos, quando conhecemos lugares e pessoas, permitimos o sabor do desconhecido, das aventuras. E como é revigorante esse espírito de alegria e forças para a etapa seguinte. Na volta às aulas, alguns percebem o olhar radiante e perguntam:
“ – E ai, as baterias foram renovadas nessas férias?”
Respondo com exultação:
“ – Sim ,foram maravilhosas. Estou pronta para o Semestre!”
E os outros professores arretados também estão prontos? Quantas vezes, somos verdadeiros com o nosso íntimo para darmos a melhor resposta? Quais as prioridades desse ano? Você está incluído neste planejamento ou é faz de contas?
Questiono, sobremaneira, todos esses aspectos para que eu não volte a cometer o mesmo estado de inércia de outras férias e, esqueça a professora arretada dentro de mim.

19 de janeiro de 2014.