segunda-feira, 10 de agosto de 2015

CONTO "A SINA DA CAPA DE CHUVA" de Antonise Aquino



A SINA DA CAPA DE CHUVA 
         Antonise Coelho de Aquino

 Nas refeições, reuníamo-nos em família e naquele dia, já atrasada para o trabalho, almoçava apressadamente, quando papai que ouvia o noticiário do meio dia mostrando cenas de violência, resolveu interromper o barulho da TV e questionar se eu sabia das histórias da capa de chuva amarela de Tio Galegão. De início, estava desatenta, mas quando ele fez a pergunta, parei alguns momentos e comecei a ouvir a narrativa.
A capa de chuva amarela que Galegão guardava na casa dele era assombrada, com mã sorte para quem a usasse.  Existia alguma força estranha que a perseguia. Quantas situações a vestimenta já passou até chegar às mãos de seu tio. Pobre capa de chuva! E como veio parar aqui no sertão, lugar de chuvas escassas, acessório sem utilidade para o nosso calor insuportável?
Animado com minha atenção, papai seguia o relato. Parte do uniforme da polícia para dias de chuva, ela havia sido de propriedade de um policial da capital Pernambucana e já passara por várias situações de conflito.  Da última vez, ao usá-la, numa tarde de chuva em Recife, trocou tiros e acabou eliminando um delinquente menor de idade. Houve repercussão do caso, por isso os familiares do policial quis desfazer-se do objeto. Um parente do interior, estando na Capital, ficou impressionado com a vestimenta e a pediu como lembrança. 
No interior, o novo dono a expôs no telhado do bar. Os fregueses que ali chegavam para tomar uma pinga ou comprar algum produto, logo interrogavam sobre aquela exposição. Depois de alguns comentários maldosos, o proprietário resolveu levar a capa de chuva para outro cômodo do estabelecimento, onde guardava as caixas de bebidas e os estoques de sacos de feijão, farinha, fumo em rodelas, carnes de bode secas estendidas e outros cacarecos.
No ambiente abarrotado de mercadorias, teve lugar de destaque.  O dono do bar, entusiasmado, repetia aos  amigos como recebera aquele modesto presente. Levava-os para ver a capa de chuva e dizia que um dia teria oportunidade de vestir. Estava esperando a chuva forte cair no sertão.
Como era um acessório sem uso no sertão, os clientes da venda se admiravam com a exibição e as invenções criadas, mas sentiam um mau estar diante do objeto.
Passados alguns meses, um empregado da mercearia, que tinha um jeito meio esquisito, mas atendia com educação aos fregueses, foi encontrado enforcado numa corda, com o olhar preso em direção à capa, pendurada nos caibros do telhado. A atitude insana do enforcamento naquele depósito, quando o dono havia saído para deixar uns produtos na vizinhança, logo ganhou repercussão nas redondezas. Muitos vieram constatar o fato, saber de mais detalhes sobre os olhos arregalados do empregado em direção à capa de chuva, a única testemunha.
Ninguém esquecia o ocorrido, mesmo depois de algum tempo.  Os vizinhos e fregueses, cada vez mais assustados, fizeram cordões de rezas, acenderam velas na porta do bar e suplicavam ao dono do bar  que a capa de chuva fosse retirada do depósito. O novo empregado nem queria buscar mercadoria no estoque, a esposa passava o dia reclamando daquele amaldiçoado objeto e, até as vendas diminuíram.
No auge da confusão, tio Galegão, morador do sobrado vizinho ao bar e  um antigo freguês, veio conversar com o proprietário da intenção em pedir emprestada a capa de chuva tão assustadora, mas que lhe deixara com uma grande curiosidade.  Afinal,  era a oportunidade de usá-la numa próxima viagem a Salvador onde chovia bastante. Quem sabe tiraria a má impressão do acessório....
O dono do bar não pensou duas vezes e lhe entregou a capa de chuva, bradando:
-  Seu Galegão, o Senhor sabe do que ocorreu aqui. Se  quer mesmo esta capa, não será um empréstimo. Pode ficar com ela para sempre.
Enquanto conversavam, entraram no depósito e uma corrente de ar passou pelo lugar, trazendo-lhes estranhos barulhos. O proprietário do bar se arrepiou e suspirou:
- É a folha de zinco colocada no telhado. Estala frequentemente, ainda mais em dias quentes.  ‘Homem deixa de besteira. Dar esta peça será o melhor a fazer. Mesmo não tendo realizado o desejo de usá-la’.
Tio Galegão estava satisfeito com o presente. Os amigos iriam se assustar, mas com o tempo tudo voltaria ao normal. Nos churrascos, seria tema para encompridar as histórias de Trancoso. 
Na verdade,  nem viajou, era um pretexto a viagem de Salvador. Depois de colocá-la exposta em um dos quartos, Tio Galegão passava horas a observá-la, toda imponente, sempre limpa, pendurada num cabide nos caibros do telhado.
Como tinha manias estranhas, de aposentado, possuir aquela vestimenta para guardar com as demais era um deleite. Seu passatempo era produzir objetos com restos de madeira, ferro e escrever histórias num livro amarelado pelo tempo.  O  velho sobrado  possuía uma mistura de produtos antigos e artefatos, excentricidades à parte.
Numa manhã de sexta-feira, Tio Galegão recebeu a visita de Tião, amigo de farras que viera lhe pedir emprestada a capa de chuva, pois iria  visitar parentes nos arredores de Pau Ferro, localidade de Petrolina e queria se exibir com o acessório, pois estava com jeito de muita chuva nos dias seguintes. Seria uma belezura vesti-la, pelo menos uma única vez.
Tio Galegão retrucou, pensou bem e lhe disse:
- Leve, leve, mas já sabe das histórias desta capa, não é, homem? Tenha muito cuidado. E me traga na segunda-feira logo cedo.
- Que nada, sou corajoso! Respondeu o amigo. Você inventa isso para ninguém lhe pedir emprestado. Estou sabendo, viu?
O fim de semana transcorreu bem, embora Tio Galegão pensasse no objeto emprestado. Teria feito a coisa certa? A Capa era mesmo amaldiçoada?
No fim da manhã de segunda-feira, impaciente, sem notícias da capa, ouviu o toque da campainha e foi abri-la. Era um colega do Tião que veio trazê-la, enrolada em vários sacos, numa caixa. Aparentemente assustado,  contou-lhe os fatos.
 -Seu Galegão, o Tião não veio deixar pessoalmente a capa porque está hospitalizado, desde a madrugada. Ele levou uma surra dos cunhados, lá no povoado e está numa situação de fazer dó. O Senhor sabe que ele apronta com a mulher. Mas  dessa vez, a família dela descobriu o feito e não deixou barato. Pior...  Engasgou-se para continuar a história.  Conta, deixa de enrolar, o que aconteceu, homem - gritou Tio Galegão.
- O pior é que... o Tião estava vestido na capa de chuva. Ele chegou todo animado em Pau Ferro, debaixo de uma chuva, mas nem reparou quando os dois cunhados  estavam numa tocaia à porta da casa da sogra e lhe deram uma rasteira, com alguns golpes. O Tião já caiu desacordado. Depois  começaram a bater nele, sem piedade.  Se a esposa não o acode, gritando aos irmãos, eles o teriam matado.
Enquanto ouvia o sucedido, Tio Galegão abria a caixa para ver o estrago da capa de chuva. Algumas manchas de sangue, partes rasgadas, na verdade, muito suja. Não se incomodou com o estrago. Sentia-se responsável pelo ocorrido, apesar do Tião ser um ‘cabra’ irresponsável.
Depois de limpar a capa, deixou-a pendurada no cabide, no mesmo lugar e  trancou a porta do quarto com cadeado.  Saiu cabisbaixo. Aquela situação lhe causara  inquietação e dúvidas, um sentimento difícil de explicar. Bem, depois decidiria o que fazer com aquele objeto, ainda precisava visitar o amigo hospitalizado e saber de mais detalhes.
- Papai, e o que meu tio fez da capa de chuva?  Mudou a sina que ela tinha? Ainda está no sobrado à espera de ser usada outra vez? Meu tio vai emprestá-la?
 Sem responder à indagação, papai olhou para mim, sorriu disfarçadamente e se levantou da mesa de refeições.








8 comentários:

Unknown disse...

Muito bom!

Unknown disse...

Muito bom!

Unknown disse...

Texto muito legal

Unknown disse...

Texto muito legal

Unknown disse...

Texto muito legal

Unknown disse...

Professora que conto gratificante de se ler! e que bacana a senhora ter prestigiado Petrolina "Pau Ferro" como parte do cenário do mesmo!

Unknown disse...

Muito bom,pelo gato de ter cidades vizinhas como parte do cenário!

Unknown disse...

texto maravilhosoo!
muito bem colocado e elaborado, chama muito atenção do leitor, muito bomm!!