domingo, 12 de julho de 2020



Quase um Compromisso de Amor

                                     Antonise Coelho /Maio 2020     

                           

 

Noite de Sexta-feira, fim de ano, o Shopping Salvador está lotado.  Por isso, procuro um local menos movimentado, algo difícil nesta época.  A vontade de comer um sushi era imensa. Reluto. Sei que apareceriam alguns inconvenientes de alergia no dia seguinte, mas não resisto ao prazer palatável.

Enquanto aguardo o prato pedido, observo a movimentação das pessoas: uma jovem passa com o bebê num canguru. O bebê dorme todo aconchegado com o calor do corpo da mamãe. Em frente à mesa, um casal discute sobre finanças. Eles falam alto e dá para escutá-los. A mulher reclama da dificuldade em pagar as contas do cartão, enquanto o homem rebate os comentários dela, dizendo-lhe que gasta demais, que é a culpa é da companheira. As culpas são trocadas mutuamente.

Essa escuta me revela o quanto as relações de hoje estão fragilizadas e, por isso, pensar sobre mim é inevitável. Vivo solitária e ao mesmo tempo evito um alguém que venha abalar meu estado. O velho ditado dos meus avós vem à tona: ‘melhor sozinha do que mal acompanhada’.

Ao saborear os maravilhosos makimono, futomaki e alguns Hot Roll (criação do brasileiro para a crocante variação do sushi), acompanhados de tiras de pepino e gengibre, os pensamentos voam a um passado mais distante.

Logo as papilas gustativas da minha língua reconhecem aqueles sabores e me levam a um lugar de memória afetiva: o convite de um jantar que me relembra muitas emoções. Cheguei ao restaurante no último andar do Hotel com uma vista singular para a cidade e, principalmente para o rio. Pouca iluminação, com castiçais acesos. Toalhas bordadas dão um toque intimista.  Há poucas pessoas no ambiente e apenas o som de uma música instrumental. O maîte me recebe e me encaminha a uma mesa reservada.

Direciono meu olhar para o homem elegante que me espera. Ele não é jovem, mas charmoso e cavalheiro e logo puxa a cadeira para eu me sentar. Cumprimento-o com um beijo na face e, discretamente, solto um sorriso por perceber que o meu atraso costumeiro não havia lhe causado mal estar. Paulo olha para mim e fala:

- Querida, o que importa é que veio ao nosso jantar. – Aliviada, sinto a minha face ficar enrubescida, enquanto recebo o cardápio do garçom.

Resolvemos saborear comida japonesa e por termos diabetes o sushi e o yakimono seriam acompanhados por salada. A minha fome era mesmo pela conversa que teríamos, precisava me fartar com palavras daquela mente tão inteligente e gentil. Havia sempre um desejo oculto, pernicioso em meu olhar, mas não passava disso.

Era um amigo comprometido, cavaleiro à moda antiga. Eu o respeitava sobremaneira para assentir que nossa amizade se transformasse em um caso amoroso. O que nos unia era muito mais poderoso, intenso e verdadeiro.

Da parte dele havia um desejo mais profundo pela mulher que eu representava. A juventude era um atrativo a mais naquela noite. No entanto, somente muito tempo depois, eu iria me questionar por não ter conhecido em profundidade o homem que ele era.

- Que perfume delicioso? O que usa? – alude Paulo para provocar um assunto mais pessoal.

- Gostou mesmo? É lichia e pimenta. – eu lhe respondo com um olhar. Em seguida, aproximo meu braço à face dele e o provoco de forma vaporosa.

O garçom nos entrega os cardápios e examino a carta de vinhos paro o jantar. Quem sabe um chileno Mont Gras, mas sem nada dizer, resolvo desistir da escolha. Naquela noite, o teor da conversa não permitiria a companhia de vinho. Fico com meu desejo. Fazemos os pedidos e acrescento um suco de abacaxi com hortelã e muito gelo. Sinto a brisa noturna se aproximar pelos janelões do ambiente, enquanto Paulo aproveita meu silêncio e pergunta:

- Então, você pensou sobre o que lhe falei em nosso último encontro e, principalmente, a proposta?

 Eu me engasgo com o gole de água. No íntimo, não sabia o que lhe dizer.  Era esperada aquela pergunta, mas eu não tinha uma resposta convincente a dizer.  Deixei-me vagar, falando sem parar;

- Sim, pensei muito sobre a situação. Afinal, se eu pretendo ser mesmo uma escritora, preciso mudar meu comportamento. Buscar os solitários momentos em reclusão para poder escrever melhor.

- Ótimo, é isso mesmo. Se você quer almejar esse sonho, tem de deixar festas, compromissos sociais com amigos e viver mais reclusa. Não é possível conciliar uma vida tão intensa de atividades e noitadas.

- Não é bem assim. Você está exagerando, Paulo.

- Não é? Todos os finais de semana, você tem festas e compromissos sociais. E o trabalho durante a semana. Não sobra tempo e espaço para a vida literária.

- É tem toda razão, preciso mudar meus hábitos.

Ao refletir a insistência de Paulo para que eu mudasse meu comportamento, percebia que seria difícil mudar. Era um desejo imenso para estar em eventos e noitadas para dançar e me divertir com amigos.  Não havia compromissos comigo mesma ou com quem quer que fosse. Não queria ser aprisionada.

O garçom nos trouxe a bebida e deu um fôlego àquela conversa. Já tinha me arrependido de não ter pedido uma taça de vinho. O assunto principal ainda não tinha vindo à tona.

- E sobre a minha proposta? Você sabe do amor que tenho por ti como homem. Se você não aceitar, não seremos mais amigos.

Aquelas palavras soavam fortemente. Bebi um grande gole do suco que já estava doce o suficiente.   

- Paulo, sinto muito, temos que conversar melhor sobre tudo isso. Você sabe que eu não posso aceitar.

- O quê? Por que não pode? Você é uma mulher livre. Eu não a compreendo. Às vezes, parece demonstrar interesse por mim e depois recua.  

- Paulo, como você poderá desistir de sua vida e da trajetória de longos anos comprometido com uma companheira? Não podemos viver uma aventura?

- Não quero uma aventura, mas um compromisso de amor. Estou lhe pedindo apenas dois anos de sua vida. Dois anos!

- Você, por acaso, tem a previsão de tempo de vida?  Como pode dizer que são apenas dois anos? A vida não tem cartas marcadas. E os seus filhos, o que eles pensarão disso?

- Estou falando sobre nós. Deixe os outros de fora.

- Eu acho que não é bem assim. Somos amigos acima de tudo. E para realizarmos isso, eu precisaria estar envolvida emocionalmente com você, Paulo.

- Você não está envolvida comigo? Tem alguém em sua vida amorosa?

- Não fale assim. Claro que existe alguém em minha vida. Não é tão simples assim para nós dois. Somos comprometidos e não teríamos como suportar as consequências de uma relação amorosa.

A refeição chega à mesa, mas com aquela conversa era difícil saborear. Forcei o organismo para que a glicemia não baixasse e pedi outro suco.

Paulo persistia com o diálogo. Elegante, falava baixo e alegava que tinha chegado tarde à minha vida. Éramos muito diferentes em temperamentos e experiências de vida.

Eu tinha meus próprios motivos para não começar a viver uma paixão de curta duração. Ter o amigo era muito melhor do que um caso amoroso, o qual somente traria dissabores às nossas famílias.

Enquanto eu falava, Paulo mexia no prato principal, mas sem comer. Senti que ele estava muito chateado comido. Em seguida. pediu ao garçom que trouxesse uma dose de Cointreau para finalizar o jantar. Talvez o digestivo ajudasse a nos descontrair. Também aceitei. Meu estômago estava embrulhado.  

Terminamos o jantar em silêncio.  Não consegui convencê-lo a desistir da proposta que era tudo ou nada: ou o compromisso ou a amizade. Caso eu não aceitasse o compromisso, não havia amizade. Assim, na saída, apenas nos despedimos friamente.  Não houve mais encontros depois daquele dia. Paulo não queria me ver ou manter contato comigo.

Semanas depois, o Correio deixou uma encomenda de Paulo. Era um exemplar do livro de poemas de Florbela Espanca, escritora portuguesa. Ao folhear algumas páginas, encontrei um pedaço de papel colado com a letra dele e apenas alguns dizeres: “A menina é doce, a mulher não. A menina perdoa, a mulher, não. A menina é sensível, a mulher é venenosa. As duas vivem dentro de você”.

Como me doeu ler aqueles versos. Fechei o livro e guardei o exemplar. Floberla Spanca seria lido em outro momento. Passado algum tempo, pensando nas palavras lidas, eu tomei a decisão de ligar para ele e agradecer o presente. Não mencionei absolutamente nada sobre o poema encontrado. Recebi a mesma frieza na despedida.

Para aceitar aquela distância e a ausência de notícias e ligações de celular, intensifiquei minhas atividades com o trabalho e os afazeres domésticos. À noite, relembrava as nossas conversas, passeios e os conselhos recebidos.

As festas natalinas daquela época foram em família e com o silêncio de Paulo. Nas férias de janeiro, fui visitar um amigo em comum. Conversamos sobre as expectativas do ano que começava e meu amigo mencionou se eu tinha me encontrado ou visto Paulo nos festejos de fim de ano. No entanto, há mais de seis meses que não o via ou conversava por celular.  Estranhei a pergunta, afinal não conversávamos sobre assuntos de cunho tão pessoal. Fui apresentada a Paulo por esse amigo comum em razão de um trabalho, mas havia uma curiosidade estranha que nem suspeitei a princípio do que viria depois.

 “Bem, não quero lhe assustar, mas as notícias sobre Paulo não são boas.  Soubemos que ele adoeceu e a situação ficou complicada. Infelizmente temos uma péssima notícia a lhe dar. Nosso amigo faleceu.

- O quê? Como isso aconteceu? Não é verdade.

- É triste demais e o pior é que isto ocorreu há um mês, durante o período de festividades natalinas. Ninguém nos avisou. Ficamos sabendo deste fato, justamente, hoje pela manhã, quando José foi ao aeroporto entregar uma encomenda e lá se encontrou com um dos filhos e perguntou por Paulo. A resposta foi de que ele tinha morrido há um mês.

Empalideci. Um aperto no peito tomou conta. As lágrimas escorriam pela face. Não dava para acreditar. Por que não fomos informados de que Paulo estava doente? Eram perguntas sem resposta.

 Rapidamente me despedi de nosso amigo e fui caminhar na orla, pois queria entender o significado daquela perda tão inesperada.

O fim de tarde deixava o rio com águas quase paradas, quietas. Mostrava, um pôr do sol avermelhado, para nos dizer que o dia seguinte seria mais quente.  Embora eu chorasse em demasia, talvez pela perda, talvez pelo arrependimento, sabia que não teria mais a companhia de Paulo nas caminhadas.

Cogitava tantas coisas e, principalmente, o nosso último encontro. As palavras dele não saiam da minha mente: São dois anos de sua vida. Será que você não pode me dar?

De repente, sou despertada daquele longo devaneio pelo segurança do shopping. Ele me diz que é hora de ir embora. As lojas estavam sendo fechadas. Não havia percebido o tempo passar. Aquele ensaio degustativo me levara para um lugar de saudade e até mesmo de um certo arrependimento que tinha deixado cicatrizes.

 


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